sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

SOUBESSE EU QUEM É DEUS

DOCE AMOR:

Soubesse eu quem é Deus e oferecia-te, embrulhado em papel reciclado, um anel de prata com o mar lá dentro. Mesmo não sabendo quem é Deus talvez consiga descobri-lo um pouco se passear contigo por entre árvores frondosas, e me sentar ao teu lado num dos bancos vermelhos do jardim. Bebendo contigo uma cerveja fresquinha a ver os sóis a bater-nos à porta sem pedir licença como nós fazíamos antes de termos sete anos.

Agora, por vezes, passeamos pelos dias tão distraídos que nem o Sol vimos.

Dizem que o último raio de Sol a desaparecer no adeus do crepúsculo é verde e quem o conseguir ver alcança a felicidade eterna.Um dia havemos os dois de nos sentarmos em frente ao sol quando ele quiser desaparecer e o mistério será nosso. Oxalá saibamos como segurá-lo na palma da mão.

Como uma mãe que cheira o próprio filho antes de ele nascer também Deus, ou quem por ele estiver a fazer o serviço, há-de ler-nos a alma e descobrir-nos os erros ortográficos. Porque nós humanos somos exagerados e complicados e Deus é límpido e simples: o homem encanta-se com romances com mais de oitocentas páginas. A mim, tal como a Deus basta um simples romance do Mia Couto ou apenas a menina do mar da Sofia. Ou apenas o teu olhar perdido neste mundo sem Deus.

DOCE AMOR:

Será que Deus está no teu olhar?

Vou ali e já venho. Espera - custa-nos tanto esperar pelo amor - vou ali e já venho. Vou à procura duma chave busca-pólos e com ela ver se Deus está nos teus olhos.

Já vi a menina dos olhos, mas não consigo ver Deus. Conseguiu escapar-se entre o motor, o travão e as mudanças dos teus olhos. De tristes para alegres. Depois para tristes outra vez. A procurar lá longe a felicidade que perseguimos com todas as forças do nosso AMOR. Novamente alegres os teus olhos onde um dia darei beijos doces para limpar as lágrimas do teu coração

Mas se Deus conseguiu escapar sem que o tenha visto, consegui descortinar, nas mudanças dos teus olhos, um amor sereno como aquele que tenho sentido por ti ao longo de todos os segundos dos últimos dias. Pensando bem, nessas mudanças dos teus olhos consegui perceber que na realidade eu te amo desde sempre.

Gosto de ti.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

EXTRACTO DE ESTEIROS


Uma amiga enviou-me um extracto da obra de Virgílio Ferreira: Aparição. E eu recordei-me de um livro que li na mesma altura em que li a Aparição. Está aqui apenas um "cheirinho".

No último sábado, os moços do Telhal Grande receberam a féria com gritos de contentamento. As moedas não tapavam o fundo das algibeiras; mas os projectos transbordavam dos cérebros infantis. No dia seguinte abria a Feira; ia haver esperas de toiros e toiradas, circos e cavalinhos. Por isso, a alegria dos rapazes punha em apuros o mestre, à hora do pagamento.

- Se não se calam, racho um! - vociferou ele, avançando para a porta da barraca.

Fez-se silêncio. Os que estavam mais próximos recuaram, temerosos.

Mas logo Gineto gritou de longe: - O melhor é matar-nos!

- Para quê, pá? Só levava ossos... - comentou Sagui, indicando o corpo enfezado.

- Ou calam-se, ou paro com isto!

Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega, entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia. O pagamento prosseguiu.

- Malesso!

- Pronto - e agitando na mão o dinheiro recebido exclamou: - Este é pró fato novo...

- Novo de há dois anos, aldrabão - casquinou Gineto. - Amanhã é que se vê.

- Sagui! - chamou o mestre.

- Cá estou.

Detrás, um companheiro perguntou:

- Vais comer todos os bolos da Feira co'isso?

- Se cá couberem... Bateu na barriga, e a malta riu. Sagui era pequeno, mas tinha fama de comilão.

Só fama...

O mestre continuou:

- Guedelhas!

- Pronto.

O moço saiu cabisbaixo, a contar a féria que os irmãos e o pai, desempregado há dois meses, esperavam. Os companheiros sabiam disso, e não gracejaram.

- Gineto!

Sem responder, o moço adiantou-se, devagar.

- Tiveste sorte, hem! - disse o mestre com ironia. - Desta vez deitaste fora a temporada.

- Foi por gostar muito de você.

Frente a frente, olharam-se com raiva.

- Malandro... - rugiu o mestre.

- Cão! - ripostou Gineto. E saiu lépido, empurrando os companheiros.

Um destes gargalhou:

- Foge, Gineto.

- Foge o quê, pá? - estacou ameaçador. - Se ele me comer, tem que me largar pelo rabo. Que julgas?

O outro calou-se, amedrontado, e Gineto seguiu caminho, maldizendo o mestre e o telhal.

Quantas vezes, em horas de revolta surda, pensara pagar com juros todas as injúrias do capataz e abandonar depois o trabalho. Já assim fizera em todos os telhais. Com 7 anos, ia o pai levá-lo pelas orelhas até à eira.

- Mestre: tome-me conta deste fidalgo.

Mas, antes de o pai chegar ao portão, atravessava ele o caniço dos esteiros e, mesmo vestido, atirava-se ao rio. A corrente era forte, mas na outra margem havia pássaros, toiros bravos a pastar e valados desconhecidos. A noite, esperava-o a tareia do costume, em vez da ceia, e na manhã seguinte regressava ao telhal pelas orelhas.

Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os toiros pastar na outra margem e as rotas dos barcos. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Mas Gineto sonhava conquistar todas as ruas. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscara no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu daquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta - era junco - e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua. A mãe bem lhe dizia ao fechar a porta: «Toma-me conta do pequeno!» Mas ele deixava o irmão a gatinhar na lama, e ia alvoroçar os garotos seus iguais. Ainda não era o Gineto ladrão. O nome veio-lhe depois com os assaltos aos pomares, florestas mais belas do que os esteiros. Mas já era mau e temido. Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados. Fora disso, era mesmo um gineto escorraçado.

Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros dos mestres e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre, como um homem.

Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E, como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro tilintasse agora no bolso das calças.

Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar.

As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tomava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas.

Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas — suas, como ele dizia — não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.

E seguiu estrada fora, antegozando a Feira. Festeiro de pés sem botas e calças com fundilhos, porque não tinha, como o Malesso e outros, um fato de feira para estrear.

In: Esteiros de Soeiro Pereira Gomes